Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Governados

 

 

Hoje, Portugal é como uma grande cidadela: em cada recanto, vemos, ouvimos e lemos ecos de uma incultura estampada, primeiro, nos meios de comunicação social e, depois, nos rostos apagados da maioria dos cidadãos. É tão subserviente e passivo o nosso povo que, se não tiver um guardião independente (uma ovelha negra) que olhe pelos seus direitos, os bandos de incultos que o governam fazem o que a real gana lhes determinar. Não há globalização ou power-points que disfarcem esta dura realidade que é "Portugal a entristecer", nas soalheiras tardes da democracia.

E a democracia? O que é a democracia?
A democracia é um ideal, mas nunca foi realizado. Foram sempre pequenos grupos que dominaram grupos maiores, por uma forma ou por outra. Tem sido sempre assim. Espero que um dia cheguemos realmente a ser a vontade geral que leva as coisas num determinado sentido. Me parece tão longínquo isso que me dá a impressão de que nessa altura nem é preciso haver democracia. Que as coisas decorrerão de tal maneira que a vontade geral se manifesta sem voto, sem nada, e tudo vai correr pelo melhor. Enfim, esperemos isso.
Agostinho da Silva (dito há 20 anos)

Agostinho da Silva
Síntese Biográfica
(Romana Brázio Valente)
 
1906 – Filho de Francisco José Agostinho da Silva e Georgina do Carmo Baptista da Silva, George Agostinho Baptista da Silva nasce no Porto a 13 de Fevereiro.
1906 (Agosto/Setembro) – Muda-se para Barca D’Alva, onde vive os primeiros da sua vida
1912/1913 – Regressa ao Porto. Como já sabia ler e escrever, a mãe inscreve-o no ensino primário (Escola de São Nicolau)
1913 – Faz o exame de primeiro grau e fica distinto
1914 – Faz o exame da 4ª Classe e ingressa na Escola Industrial Mouzinho da Silveira
1916 – Ingressa no Liceu Rodrigues de Freitas
1924 – Entra para a Faculdade de Letras do Porto para cursar Românicas mas, transfere-se, no mesmo ano lectivo, para Filologia Clássica
1928 – Termina a sua licenciatura e passa a colaborar na Revista Seara Nova
1929 – Defende a sua dissertação de doutoramento a que dá o nome de O Sentido Histórico das Civilizações Clássicas
1930 – Frequenta a Escola Normal Superior de Lisboa
1931 – Parte para Paris, como bolseiro, e estuda na Sorbonne e no Collége de France
1933 – Regressa a Portugal e é colocado no Liceu de Aveiro como professor, onde lecciona durante dois anos
1935 – É demitido do ensino oficial por não ter assinado a Lei Cabral (obrigatória para todos os funcionários públicos)
1935 – Consegue bolsa do Ministério das Relações Exteriores de Espanha e vai estudar para o Centro de Estudos Históricos de Madrid
1936 – Regressa a Portugal devido à iminência da Guerra Civil Espanhola
1938 – Abandona a Revista Seara Nova.
1939 – Criação do Núcleo Pedagógico Antero de Quental
1940 – Elaboração de Iniciação – Cadernos de Informação Cultural
1943 – É preso pela PIDE na Prisão do Aljube
1944 – Abandona Portugal e parte para a América do Sul. Entra pelo Rio de Janeiro e depois dirige-se para São Paulo
1945 – Abandona o Brasil e instala-se no Uruguai
1946 – Vive na Argentina
1947 – Regressa definitivamente ao Brasil. Instala-se em São Paulo mas, em seguida, fixa-se na Serra de Itatiaia
1948 – Abandona a Serra e instala-se no Rio de Janeiro. Nesta cidade, trabalha no Instituto Oswaldo Cruz (dedicando-se ao estudo de entomologia), ensina na Faculdade Fluminense de Filosofia e colabora com Jaime Cortesão, na Biblioteca Nacional, no aprofundamento da obra de Alexandre Gusmão
1952 – Integra o corpo docente da Universidade de Paraíba (João Pessoa) e lecciona também em Pernambuco
1954 – Participa, ao lado de Cortesão, na organização da Exposição do 4º Centenário da Cidade de São Paulo
1955 – Ajuda a fundar a Universidade de Santa Catarina
1959 – Criação do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) e ensina Filosofia do Teatro na Universidade da Bahia
1961 – Torna-se assessor para a política externa do Presidente Jânio Quadros
1961 – Regressa fugazmente ao Rio de Janeiro e a Santa Catarina, porém, ruma para Brasília
1962 – Colabora na fundação da Universidade de Brasília e cria o Centro de Estudos Portugueses na mesma Universidade
1963 – Equiparado a bolseiro da UNESCO, visita o Japão. Em Tóquio dá aulas de português. Aproveita a sua ida ao Oriente para conhecer Macau e Timor. No mesmo ano vai aos Estados Unidos da América. Regressa posteriormente ao Senegal.
1964 – Assenta moradia entre Cachoeira (no recôncavo baiano) e Salvador (onde congemina a formação do Museu do Atlântico Sul no Forte de São Marcelo). Em Cachoeira funda a Casa Paulo Dias Adorno que, para além de ser um Centro de Estudos (extensão do Centro de Brasileiro de Estudos Portugueses da Universidade de Brasília), é também uma escola
1969 – Avesso a ditaduras, sai do Brasil em 1969 e regressa ao seu pais de origem
1969-1994 – Num Portugal onde reina uma primavera marcelista, devota-se essencialmente à escrita. Mais tarde, e já depois da Revolução dos Cravos, Agostinho regressará ao ensino: universitário por título honorifico e particular e informal na sua casa do Príncipe Real. Nessa altura é reformado pelo Governo Brasileiro. Só uns tempos depois, o Governo de Portugal lhe restituirá os retroactivos concernentes aos anos da Ditadura. Contudo, e despreocupado com a questão financeira, viaja, escreve, recebe medalhas e títulos, participa em programas de televisão, é reconhecido filósofo popular, mas, na sua perspectiva, é o tempo em que se ocupa da sedimentação da futuridade da Era do Espírito Santo
1994 – Morre em Lisboa a 3 de Abril.
publicado por negra às 14:41
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

temos MEDO

Temos MEDO. E somos escravos do medo. Por gosto.
Para quê ganhar quando queremos ganhar, se podemos ganhar, simplesmente, tendo medo de perder?
Coragem? Admiramos quem é corajoso. Não admiramos a simples ausência de medo. Porque quem não tem medo, dizem, é LOUCO.
O medo pode ser instinto de sobrevivência. Pode ser consciência de perigo.
Mas também há o medo INCONSCIENTE e cego. Que invade e tolhe a alma, que lhe suga toda a vontade, toda a paixão, todo o arbítrio e toda a HONESTIDADE.
Tens medo de quê?
De todos os que te rodeiam? Das autoridades? Dos chefes? Das instituições indefinidas que em nada te dizem respeito? Tens medo de mim? De ti?
Porque vês esses ditadores e essas censuras em todo o lado, e para onde quer que te vires estás à espera de autorização prévia para tudo o que dizes, fazes, pensas ou sentes? Onde estão as tuas amarras?
Porque sentes tanto medo de assumir a capacidade de pensar e de agir?
Tens medo até de querer! De querer tudo quanto poderias querer, de sonhar tudo quanto poderias sonhar, de PENSAR tudo quanto poderias pensar…
Preferes negar a tua alma, preferes ter ideias, mas ser ainda assim uma MENTIRA de ti próprio reinventada nos outros e no medo que tens deles…
Preferes morrer sem ter desafiado uma lei injusta ou um conceito instituído, a teres sido TU E AS TUAS IDEIAS em tudo quanto És e fazes?
Imagina que o medo de não ter poder sobre si próprio fugia de quem governa. Imagina que o medo de se tornar vulnerável fugia de quem faz guerra. Imagina que o medo de ficar sozinho fugia de quem abusa e maltrata.
Imagina que o medo de abrir os olhos e viver te escapava.
Imagina. Esquece o medo.
E pára de mentir.
Ana Brás
publicado por negra às 19:29
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

a LER

As Pessoas Só Crescem ao Ritmo a que São Obrigadas

Os jovens de agora parece que têm dificuldade em crescer. Não sei porquê. Se calhar as pessoas só crescem ao ritmo a que são obrigadas.

 

 

Continue a ler

Cormac McCarthy, in 'Este País Não É para Velhos'


publicado por negra às 23:25
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

A PALAVRA

 
A PALAVRA
 
Falaremos então da palavra. A palavra não como substantivo comum, mas como manifesto de sentimentos e emoções, da liberdade, do íntimo!
 
- A CONQUISTA:
 
 As palavras nunca devem ser «dadas», nem tão «arrastadas» por leituras obrigatórias, elas têm de ser conquistadas.
 
- O ESPECTÁCULO:
 
Partindo da frase de Almada Negreiros: «As palavras dançam nos olhos conforme o palco dos olhos de cada um», percebemos que não vale a pena remendar o palco, construir um bocadinho mais, ele nasce e cresce espontaneamente.
 
- A DESCOBERTA:
 
Um livro é um mundo novo, tão especial que é possível compactá-lo em páginas repletas de magia.
 
 
Toda esta magia está ao nosso alcance… Desfruta-a.
 Saura
publicado por negra às 19:21
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Domingo, 6 de Janeiro de 2008

A Geração dos 30, por Nuno Markl

publicado por negra às 18:53
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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

Vamos mudar isto?

Vamos mudar isto.
“com que passo tremente se caminha/em busca dos destinos encobertos/como se estão volvendo olhos incertos/como esta geração marcha sozinha!”
Foi com estes versos de Antero de Quental (o mestre de Zé Mário) e o tema A Noite, numa mescla de instrumentos musicais e numa voz estranhamente suave, lenta, baixa, quase sussurrante, que José Mário Branco foi marcando pausadamente as palavras: “Foi isto que quisemos? Como é que aqui chegámos? Acaso estamos Vivos? Existe uma saída?”. E eis que surge “Mudar de Vida”, um poema à imagem de FMI, onde  a voz e as palavras faladas, gritadas, cantadas, um texto perdidamente radical, intensamente político, marcadamente interventivo, um hino anti-capitalista, anti-imperialista, um ataque cerrado ao centrismo, ao oportunismo político, um “discurso” carregado de ironia, de verdade, de tensão. Ninguém sai impune. José Mário Branco grita a  convicção de que tem de ser feito muito mais para “Mudar de vida” já,  “porque os ricos estão mais ricos e os pobres não aguentam”.
"Isto está insuportável. A nossa sociedade está irracional, barbarizada, desumanizada. E isto é o nosso olhar de intelectuais. Mas depois começamos a pensar nas pessoas que estão mesmo mal, naqueles olhares que vemos no telejornal, aqueles que ao fim de trinta ou quarenta anos de trabalho vão para casa sem nada, apenas com um casaco nas mãos (...) isto tem de ter uma leitura política qualquer (...) Isto não serve. Não tem nada a ver com os valores da humanidade, tanto a nível quotidiano como global. O capitalismo está a destruir famílias, pessoas, comunidades ['é para repetir os horrores do passado?'] não. Então o que é? Não sabemos. Temos é que tentar. Ir buscar aquilo que houve de mais válido nas ideias e nos sonhos transformadores do passado, ver o que estragou aquilo, e conseguir um novo caminho (...) Mudar de vida".
Estas palavras entoaram num concerto de José Mário Branco, ocorrido na Casa da Música, em Maio de 2007, foi o acontecimento que despertou a vontade que deu origem ao ME (movimento estudante: Ovelhas Negras contra o marasmo).
São momentos como este que nos fazem tremer, que nos despertam da letargia, que nos fazem querer... mudar de vida.
Este é um  blogue pensado para "os meninos de amanhã" que queiram «arreganhar o dente».
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Arreganhar o Dente, Ana Hatherly (Porto, 1929)

  • publicado por negra às 00:17
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    Terça-feira, 1 de Janeiro de 2008

    dieta poética das Ovelhas Negras

    Poema: CANÇÃO DO SEMEADOR - Miguel Torga
     
    Na terra negra da vida,
    Pousio do desespero,
    É que o Poeta semeia
    Poemas de confiança.
    O Poeta é uma criança
    Que devaneia.
     
    Mas todo o semeador
    Semeia contra o presente.
    Semeia como vidente
    A seara do futuro,
    Sem saber se o chão é duro
    E lhe recebe a semente.
     
    PoemaEmbora os meus olhos sejam-  António Aleixo
    Embora os meus olhos sejam
    os mais pequenos do mundo
    o que importa é que eles vejam
    o que os homens são no fundo

    Que importa perder a vida
    na luta contra a traição
    se a razão mesmo vencida
    não deixa de ser razão

    Vós que lá do vosso império
    prometeis um mundo novo
    calai-vos que pode o povo
    querer um mundo novo a sério

    Eu não tenho vistas largas
    nem grande sabedoria
    mas dão-me as horas amargas
    lições de filosofia

    Poema: CANTATA DA PAZ - Sophia de Mello Breyner

    Vemos, ouvimos e lemos
    Não podemos ignorar
    Vemos, ouvimos e lemos
    Não podemos ignorar

     

    Vemos, ouvimos e lemos
    Relatórios da fome
    O caminho da injustiça
    A linguagem do terror

     

    A bomba de Hiroshima
    Vergonha de nós todos
    Reduziu a cinzas
    A carne das crianças

     

    D’África e Vietname
    Sobe a lamentação
    Dos povos destruídos
    Dos povos destroçados

     

    Nada pode apagar
    O concerto dos gritos
    O nosso tempo é
    Pecado organizado

    Poema: Travessia do Deserto - José Mário Branco

    Que caminho tão longo!
    Que viagem tão comprida!
    Que deserto tão grande grande
    Sem fronteira nem medida!

    Águas do pensamento
    Vinde regar o sustento
    Da minha vida

    Este peso calado
    Queima o sol por trás do monte
    Queima o tempo parado
    Queima o rio com a ponte

    Águas dos meus cansaços
    Semeai os meus passos
    Como uma fonte

    Ai que sede tão funda!
    Ai que fome tão antiga!
    Quantas noites se perdem
    No amor de cada espiga!

    Ventre calmo da terra
    Leva-me na tua guerra
    Se és minha amiga.

    Poema: Do que um homem é capaz, José Mário Branco
     
    Do que um homem é capaz
    As coisas que ele faz
    P’ra chegar aonde quer
    É capaz de dar a vida
    P’ra levar de vencida
    Uma razão de viver
     
    A vida é como uma estrada
    Que vai sendo traçada
    Sem nunca arrepiar caminho
    E quem pensa estar parado
    Vai no sentido errado
    A caminhar sozinho
     
    Vejo gente cuja vida
    Vai sendo consumida
    Por miragens de poder
    Agarrados a alguns ossos
    No meio dos destroços
    Do que nunca hão-de fazer
     
    Vão poluindo o percurso
    Co’as sobras do discurso
    Que lhes serviu pr’ abrir caminho
    À custa das nossas utopias
    Usurpam regalias
    P’ra consumir sozinho
     
    Com políticas concretas
    Impõem essas metas
    Que nos entram casa dentro
    Como a Trilateral
    Co’ a treta liberal
    E as virtudes do centro
     
    No lugar da consciência
    A lei da concorrência
    Pisando tudo p’lo caminho
    P’ra castrar a juventude
    Mascaram de virtude
    O querer vencer sozinho
     
    Ficam cínicos, brutais
    Descendo cada vez mais
    P’ra subir cada vez menos
    Quanto mais o mal se expande
    Mais acham que ser grande
    É lixar os mais pequenos
     
    Quem escolhe ser assim
    Quando chegar ao fim
    Vai ver que errou o seu caminho
    Quando a vida é hipotecada
    No fim não sobra nada
    E acaba-se sozinho
     
    Mesmo sendo os poderosos
    Tão fracos e gulosos
    Que precisam do poder
    Mesmo havendo tanata gente
    P’ra quem é indif’rente
    Passar a vida a morrer
     
    Há princípios e valores
    Há sonhos e há amores
    Que sempre irão abrir caminho
    E quem viver abraçado
    À vida que há ao lado
    Não vai morrer sozinho
    E quem morrer abraçado
    À vida que há ao lado
    Não vai viver sozinho.

    Poema: Margem de certa maneira - José Mário Branco

    Do berço à cova sem parar
    caminho fora sempre a andar
    cá vou levando a minha vida

    Um minutinho a descansar
    a vida inteira a trabalhar
    suor sem conta nem medida

    Pra ter um companheiro nesta viagem
    vou meter um pauzinho na engrenagem

    Do berço à cova sem vagar
    enxada à terra barco ao mar
    a mão e a máquina a compasso

    Os bois no campo a lidar
    E o serventio a trabalhar
    todos com o mesmo cangaço

    Pra ter um companheiro nesta viagem
    vou meter um pauzinho na engrenagem

    Do berço à cova sol a sol
    por pão, amor e futebol
    dor no sapato e dor na espinha

    Canta-se o fado em lá bemol
    morde a sardinha no anzol
    E o tubarão segura a linha

    Pra ter um companheiro nesta viagem
    vou meter um pauzinho na engrenagem

    Do berço à cova sem parar
    caminho fora sempre a andar
    cá vou levando a minha vida

    Um minutinho a descansar
    a vida inteira a trabalhar
    suor sem conta nem medida

    Pra ter um companheiro nesta viagem
    vou meter um pauzinho na engrenagem

    “E quais são os teus valores? Os meus valores? Sim os teus valores! Bem os meus valores são a Bolsa de Valores” (José Mário Branco, Mudar de Vida)

    Poema: Quando eu for grande - Manuela de Freitas
    Quando eu for grande quero ser
    Um bichinho pequenino
    P'ra me poder aquecer
    Na mão de qualquer menino

    Quando eu for grande quero ser
    Mais pequeno que uma noz
    P'ra tudo o que eu sou caber
    Na mão de qualquer de vós

    Quando eu for grande quero ser
    Uma laje de granito
    Tudo em mim se pode erguer
    Quando me pisam não grito

    Quando eu for grande quero ser
    Uma pedra do asfalto
    O que lá estou a fazer
    Só se nota quando falto

    Quando eu for grande quero ser
    Ponte de uma a outra margem
    Para unir sem escolher
    E servir só de passagem

    Quando eu for grande quero ser
    Como o rio dessa ponte
    Nunca parar de correr
    Sem nunca esquecer a fonte

    Quando eu for grande quero ser
    Um bichinho pequenino
    Quando eu for grande quero ser
    Mais pequeno que uma noz

    Quando eu for grande quero ser
    Uma laje de granito
    Quando eu for grande quero ser
    Uma pedra do asfalto

    Quando eu for grande...
    Quando eu for grande...

    Quando eu for grande quero ter
    O tamanho que não tenho
    P'ra nunca deixar de ser
    Do meu exacto tamanho

    Poema: Eh! Companheiro  - Sérgio Godinho / José Mário Branco

     

    Eh! Companheiro aqui estou
    aqui estou p'ra te falar
    Estas paredes me tolhem
    os passos que quero dar
    uma é feita de granito
    não se pode rebentar
    outra de vidro rachado
    p'ras duas pernas cortar

    Eh! Companheiro resposta
    resposta te quero dar
    Só tem medo desses muros
    quem tem muros no pensar
    todos sabemos do pássaro
    cá dentro a qu'rer voar
    se o pensamento for livre
    todos vamos libertar

    Eh! Companheiro eu falo
    eu falo do coração
    Já me acostumei à cor
    desta negra solidão
    já o preto que vai bem
    já o branco ainda não
    não sei quando vem o vento
    p'ra me levar de avião

    Eh! Companheiro respondo
    respondo do coração
    ser sozinho não é sina
    nem de rato de porão
    faz também soprar o vento
    não esperes o tufão
    põe sementes do teu peito
    nos bolsos do teu irmão

    Eh! Companheiro vou falar
    vou falar do meu parecer
    Vira o vento muda a sorte
    toda a vida ouvi dizer
    soprou muita ventania
    não vi a sorte crescer
    meu destino e sempre o mesmo
    desde moço até morrer

    Eh! Companheiro aqui estou
    aqui estou p'ra responder
    Sorte assim não cresce a toa
    como urtiga por colher
    cresce nas vinhas do povo
    leva tempo a amadur'cer
    quando mudar seu destino
    está ao alcance de um viver

    Eh! Companheiro aqui estou
    aqui estou p'ra te falar
    De toda a parte me chamam
    não sei p'ra onde me virar
    uns que trazem fechadura
    com portas para espreitar
    outros que em nome da paz
    não me deixam nem olhar

    Eh! Companheiro resposta
    resposta te quero dar
    Portas assim foram feitas
    p'ra se abrir de par em par
    não confundas duas coisas
    cada paz em seu lugar
    pela paz que nos recusam
    muito temos de lutar.


    Poema: Muda de Vida - António Variações

    Muda de vida se tu não vives satisfeito
    Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
    Muda de vida, não deves viver contrafeito
    Muda de vida, se a vida em ti a latejar

    Ver-te sorrir eu nunca te vi
    E a cantar, eu nunca te ouvi
    Será te ti ou pensas que tens... que ser assim

    Ver-te sorrir eu nunca te vi
    E a cantar, eu nunca te ouvi
    Será te ti ou pensas que tens... que ser assim

    Olha que a vida não, não é nem deve ser
    Como um castigo que tu terás que viver

    Muda de vida se tu não vives satisfeito
    Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
    Muda de vida, não deves viver contrafeito
    Muda de vida, se a vida em ti a latejar

    Poema: A culpa é da vontade - António Variações

    A culpa não, não é do sol
    Se o meu corpo se queimar
    A culpa não, não é do sol
    Se o meu corpo se queimar
    A culpa é da vontade
    Que eu tenho de te abraçar

    A culpa não, não é da praia
    Se o meu corpo se ferir
    A culpa não, não é da praia
    Se o meu corpo se ferir
    A culpa é da vontade
    Que eu tenho de te sentir

    A culpa é da vontade
    Que vive dentro de mim
    E só morre com a idade
    Com a idade do meu fim
    A culpa é da vontade

    A culpa não, não é do mar
    Se o meu olhar se perder
    A culpa não, não é do mar
    Se o meu olhar se perder
    A culpa é da vontade
    Que eu tenho de te ver

    A culpa não, não é do vento
    Se a minha voz se calar
    A culpa não, não é do vento
    Se a minha voz se calar
    A culpa é do lamento
    Que sufoca o meu cantar

    A culpa é da vontade
    Que vive dentro de mim
    E só morre com a idade
    Com a idade do meu fim
    A culpa é da vontade

    Poema: Quero é viver - António Variações

    Vou viver
    até quando eu não sei
    que me importa o que serei
    quero é viver

    Amanhã, espero sempre um amanhã
    e acredito que será
    mais um prazer

    e a vida é sempre uma curiosidade
    que me desperta com a idade
    interessa-me o que está para vir
    a vida em mim é sempre uma certeza
    que nasce da minha riqueza
    do meu prazer em descobrir

    encontrar, renovar, vou fugir ou repetir

    vou viver,
    até quando, eu não sei
    que me importa o que serei
    quero é viver
    amanhã, espero sempre um amanhã
    e acredito que será mais um prazer

    a vida é sempre uma curiosidade
    que me desperta com idade
    interessa-me o que está para vir
    a vida, em mim é sempre uma certeza
    que nasce da minha riqueza
    do meu prazer em descobrir

    encontrar, renovar vou fugir ou repetir

    vou viver
    até quando eu não sei
    que me importa o que serei
    quero é viver,
    amanhã, espero sempre um amanhã
    e acredito que será mais um prazer

    Poema: É p'ra Amanhã - António Variações

    É p'ra amanhã
    Bem podias fazer hoje
    Porque amanã sei que voltas a adiar
    E tu bem sabes como o tempo foge
    Mas nada fazes para o agarrar

    Foi mais um dia e tu nada fizeste
    Um dia a mais tu pensas que nao faz mal
    Vem outro dia e tudo se repete
    E vais deixando ficar tudo igual

    É p'ra amanhã
    Bem podias viver hoje
    Porque amanha quem sabe se vais ca estar
    Ai tu bem sabes como a vida foge
    Mesmo que penses que está p'ra durar

    Foi mais um dia e tu nada viveste
    Deixas passar os dias sempre iguais
    Quando pensares no tempo que perdeste
    Então tu queres mas é tarde demais

    É p'ra amanhã
    Deixa lá não faças hoje
    Porque amanhã tudo se há-de arranjar
    Ai tu bem sabes que o trabalho foge
    Mesmo de quem diz que quer trabalhar

    Eu sei que tu andas a procurar
    Esse lugar que acerte bem contigo
    Do que aparece não consegues gostar
    E do que gostas já está preenchido

    Poema: Estou além - António Variações

     

    Não consigo dominar
    Este estado de ansiedade
    A pressa de chegar
    P'ra não chegar tarde
    Não sei de que é que eu fujo
    Será desta solidão
    Mas porque é que eu recuso
    Quem quer dar-me a mão?

    Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar
    Porque até aqui eu só

    Quero quem
    Quem eu nunca vi
    Porque eu só quero quem
    Quem não conheci
    Porque eu só quero quem
    Quem eu nunca vi
    Porque eu só quero quem
    Quem não conheci
    Porque eu só quero quem
    Quem eu nunca vi

    Esta insatisfação
    Não consigo compreender
    Sempre esta sensação
    Que estou a perder
    Tenho pressa de sair
    Quero sentir ao chegar
    Vontade de partir
    P'ra outro lugar

    Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
    Porque até aqui eu só

    Estou bem
    Aonde não estou
    Porque eu só estou bem
    Aonde eu não vou
    Porque eu só estou bem
    Aonde não estou
    Porque eu só estou bem
    Aonde eu não vou
    Porque eu só estou bem
    Aonde não estou

     

     

    publicado por negra às 23:25
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    ME: movimento estudante - Ovelhas Negras contra o marasmo

    O movimento ME nasceu a 29/10/2007, no restaurante Raposeira, durante uma confraternização entre um grupo de  alunos do ensino secundário e um seu professor. A ideologia que o move encontra-se enunciada num manifesto de intenções definido pelos seus fundadores.
    Manifesto do M. E. - contra o marasmo
    “Vemos, ouvimos e lemos
    Não podemos ignorar
    Vemos, ouvimos e lemos
    Não podemos ignorar”
                Sophia de Mello Breyner, cantata da paz
    Nós… que acreditamos na liberdade de expressão. Nós… que protegemos o direito de falar — e o direito de ouvir. Nós… que acreditamos na necessidade de construir saber. Nós… que acreditamos no poder da comunicação directa. Nós… que acreditamos que a cultura é essencial para um futuro livre, justo e próspero. Nós, os que sonhamos,…
    …vamos erguer a voz assim, num desafio, para que todos “Saibam que há gritos, como há nortadas, / Violências famintas de ternura.”.
    Que a música e a poesia se manifestem!
    Porque…
    - nós queremos soltar a música;
    - nós queremos cantar o Amor, a Liberdade, a Justiça e a Verdade;
    - nós queremos falar da coragem, da audácia, da rebelião dos poetas comprometidos;
    - nós queremos que a palavra seja elevada ao canto e a voz ao grito...
    porque…
    Porque os outros se mascaram mas tu não
    Porque os outros usam a virtude
    Para comprar o que não tem perdão
    Porque os outros têm medo mas tu não
    Porque os outros são os túmulos caiados
    Onde germina calada a podridão.
    Porque os outros se calam mas tu não.
    Porque os outros se compram e se vendem
    E os seus gestos dão sempre dividendo.
    Porque os outros são hábeis mas tu não.
    Porque os outros vão à sombra dos abrigos
    E tu vais de mãos dadas com os perigos.
    Porque os outros calculam mas tu não.
                           Sophia de Mello Breyner Andresen
    Audaces fortuna juvat
    publicado por negra às 20:36
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