.Tâmega em Perigo

Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Os inúteis mais bem pagos: retratos

Um dia de… professor
 
Deitar tarde e cedo erguer. Mais uma manhã, mais uma batalha. Será que nas horas em que deixou vencer-se pelo sono perdeu mais algum direito ou lhe exigiram mais algum documento inesperado, mais um de muitos decretos ou lhe atribuíram mais alguma descontextualizada tarefa?
Será? Para já, parece que não! Afinal, não passou assim tanto tempo. Esteve até de madrugada a tentar corrigir testes de oito turmas, com uma média de 25 alunos cada. Corrige o do Pedro, o do Zeca, o da Joana… Volta atrás… Vê de novo a resposta do Pedro… Esta está mais completa, mas aquela melhor estruturada… Ao fim de quatro horas, primeira turma, primeira correcção acabada. Agora há que comparar melhor as respostas. Não queremos que haja injustiças nas notas atribuídas! Ufa! Acabou uma turma! São duas da manhã. Já só dá para rever as aulas para amanhã… Sete e meia da manhã, sai a correr para a escola. Depois de pouco menos de uma hora de viagem, acabadinho de chegar, cafezinho e aula. Intervalo, 20 minutos: vai resolver um problema de uma falta de um aluno, não esquecer de deixar a ficha na reprografia com 48 horas de antecedência. Uma vez que, após terceira carta endereçada aos pais, estes continuam sem dar sinal, toca a telefonar: “Estou, D. Maria, sou o director de turma do Ricardo e queria marcar uma reunião consigo para conversarmos sobre o mau comportamento do Ricardo e a sua vontade de deixar a escola…”. “Ligou-me para isso? Não posso, não tenho tempo, com licença, tenho de ir. Não volte a importunar-me com isso. Os professores é que não sabem controlá-los”. “Trirriiiiiimmm”. Aula! Não devemos deixar os alunos à espera, por isso, toca a ir para a sala. Pousa a pasta, tira o material… Chegam os primeiros alunos… Escreve o sumário no quadro… Mais um aluno que entra… Chamada… Os alunos vão conversando… O professor apresenta a matéria aos alunos.. “Que seca!!!”, “Não me apetece.”, “Não tenho de o aturar”, “O meu pai dá-lhe negativa se der trabalho para casa”, “Se me castiga, telefono ao meu pai e ele vem dar-lhe uma coça!!!”…
O professor, ciente da sua missão, vai retorquindo: “Vamos lá, turma. Esta matéria é muito interessante, silêncio, por favor”. Mais um aluno que entra de rompante, atira a porta para trás com violência, atravessa a sala e vai sentar-se numa das cadeiras do fundo. O professor pergunta-lhe pelas boas maneiras, mas o aluno… “Quero lá saber, vá bugiar!”. O professor atribui-lhe um castigo (trabalho sobre a matéria) e marca-lhe falta disciplinar por desrespeito. “Marcou-me falta? Então, vou-me embora”. Entretanto…
Trrriiiimmm
O tempo já acabou. Entre chamadas de atenção e as várias tentativas de começar a aula, esta já acabou e os alunos já desapareceram, apenas num abrir e fechar de braços do professor! Durante a aula prevalecem a falta de interesse dos alunos, os insultos ao professor e aos colegas, quezílias entre alunos; tudo se passa como se estivessem no recreio.
 Eric Sèvegrand, publicado no  JN
 
Querem mais?
 
Faço projectos, planos, planificações; sou membro de assembleias, conselhos, reuniões; escrevo actas, relatórios e relações; faço inventários, requerimentos e requisições; faço contactos e comunicações; consulto ordens de serviço, circulares, normativas e legislações; preencho impressos, grelhas, fichas e observações; faço cópias de tudo, dossiês, arquivos e encadernações; participo em actividades, eventos, festividades e acções; faço balanços, balancetes e tiro conclusões; apresento, relato, critico e envolvo-me em auto-avaliações; defino estratégias, critérios, objectivos e consecuções; leio, corrijo, aprovo, releio múltiplas redacções; informo-me, investigo, estudo, frequento formações; redijo ordens, participações e autorizações; lavro actas, escrevo, participo em reuniões; e mais actas, planos, projectos e avaliações; e reuniões e reuniões e mais reuniões!...E depois ouço alunos, pais, coordenadores, directores, inspectores, observadores, secretários de estado, a ministra e, como se não bastasse, outros professores e a ministra! Elaboro, verifico, analiso, avalio, aprovo; assino; averiguo, estudo, consulto, concluo, coisas curriculares, disciplinares, departamentais, educativas, pedagógicas, comportamentais, e ainda querem mais?
Que eu dê aulas?!!!...
Domingos Faria, publicado no JN
 
Tá porreiro, pá!
 
O que é, afinal, um excelente professor?
Agora começa a vir à tona o real propósito da medida que se propunha “premiar o mérito”. Depois de muita demagogia e pressão que estalaram num protesto massivo, a “flexibilidade” dos nossos governantes demonstra agora a finalidade da política: qualquer coisa serve, as escolas que decidam. Tem é de existir X% de excelentes e de muito bons por cada escola. Entendam-se, chateiem-se mas avaliem-se uns aos outros. A gente quer é uns números. Já com umas cotas definidas, claro. Afinal não importa descobrir, em conjunto com os profissionais, os problemas, os paradigmas errados do nosso ensino. Ficam adiados os diagnósticos e as reformas estruturais. As necessidades de formação do corpo docente? Eles que as paguem. A “autonomia” vem colada a burocracia crescente que desconfia de tudo o que não está numa grelha. Afinal, o que importa é dizer que se fez qualquer coisa e que há uns gráficos para mostrar nos telejornais e nas eleições. Governar é criar decretos e despachos. É criar cursos sem formar professores para as novas especificidades. É mandar as escolas mandar tomar conta dos meninos até às dezassete horas e pagar uma miséria aos que lá seguram uma bandeira das «reformas espectaculares». Na “second life” em que os políticos privatizados que detestam funcionários públicos jogam, os números são fantásticos e, para eles, “tá porreiro, pá!”.
Pedro Quintas, publicado no JN
publicado por negra às 23:20
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